• PRIVILÉGIOS, BOMBOM DE BANANA E VEGANISMO

    Há um tempo, por indicação de uma amiga, assisti alguns vídeos do projeto ‘Human‘ no YouTube. Um dos meus preferidos é o de Maria Lindalva, que se alfabetizava aos 55 anos de idade no sertão do país. Assisti também a entrevista de Bill Gates, onde ele diz que teve sorte quando criança pois seus pais o encorajavam a aprender coisas novas, lhe compravam livros e o colocaram numa boa escola. Como resultado, Gates passou a se interessar por ciência e, hoje, após construir seu império com a Microsoft, pode ajudar entidades filantrópicas e financiar pesquisas e projetos como a startup americana Beyond Meat, que produz, basicamente, carne de mentira.

    Os produtos são feitos a base de plantas como num processo arquitetônico (como eles mesmos dizem), unindo aminoácidos, lipídios e minerais encontrados no reino vegetal para, assim, produzir algo com gosto e textura de carne sem nenhum abate envolvido. Li no portal Business Insider, inclusive, que em 2014 a rede de supermercados americana Whole Foods trocou por engano os rótulos das saladas de frango com as que levavam o produto da Beyond Meat e nenhum consumidor notou diferença.

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    Agora, uma analogia rápida: Na casa de muitos que leem esse post devia rolar a rejeição com o bombom Caribe. Ele era o último a ser comido, o renegado, que ficava marinando na caixa até a larica de alguém bater ou a vó acabar comendo. Lembra? Pois bem: essa situação ser cotidiana já indica que sou uma pessoa privilegiada. Você não precisa ser bilionário pra ser privilegiado, veja bem, e é necessário reconhecer as vantagens que levamos ao longo da vida, seja por nossa cor, gênero, classe social ou religião, para fazer uma análise coerente dos fatos.

    Ter acesso ajudou a formar a pessoa que sou hoje; não me sobra dinheiro, mas recebo tanta informação que consigo comer fora, viajar e ir a eventos gastando menos do que se não fosse “antenada”. Com tantas referências, sou feminista, apreciadora da cultura alternativa e aderi ao veganismo, assunto com que eu colaboro para o Desocupada. Mas e se eu fosse filha da Dona Lindalva, será que eu falaria sobre especismo? Melhor ainda: será que eu já teria ouvido falar sobre isso?

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    A classe média detém o poder de escolha; “Pepsi ou Coca-Cola? MC Donald’s ou Burger King?”. Eu, que faço parte de tal classe, pude escolher entre assistir a mais um episódio de ‘Friends’ ou documentários como ‘Cowspiracy’, ‘Fed Up’, ‘Food Matters’ e ‘Forks Over Knives’. A informação estava ali, acessível, e então eu pude alcançá-la e aderir a uma nova filosofia e estilo de vida.

    Eu posso (e você também) escolher entre uma barra de chocolate com ou sem leite em sua composição, mas e quem depende da cesta básica? É justo tratar essa pessoa como se ela estivesse na posição de dizer “Obrigado, mas não como salsicha”, deixar de lado o biscoitinho, dar a lata de sardinha pra vizinha?

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    Isso deslegitimiza a causa? Jamais!

    Veja bem, eu economizo muito no mercado sendo vegana, mesmo. Para isso, dispenso embutidos e processados caríssimos (muitas vezes até importados), hambúrgueres embalados e leite de amêndoas de caixinha. Minhas compras consistem em legumes, verduras, frutas e grãos, que compro em empórios no centro da cidade a preços módicos muitas vezes. Cozinho mais do que antes, sim, mas com planejamento tudo fica mais possível. Feiras veganas normalmente vendem seus quitutes por volta de R$10, também, o que é um excelente incentivo para experimentar novos sabores. Tudo tão lindo, tão mágico, né?!… Mas e a receita que a Ana Maria Braga faz de manhã, é vegan? E a propaganda da novela, é de brócolis ou de peito de peru? O Sustagen Kids, que é fonte de vitaminas e minerais, não pode fazer mal se está na TV. Cê viu só, a Trakinas agora é integral, tá tudo bem!

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    Não vou falar sobre o veganismo em larga escala e a fome no mundo, onde o que é plantado para a pecuária seria direcionado às pessoas. Também não vou falar de colesterol, sofrimento animal, nem de desmatamento. Existem artigos e filmes que falam disso com a propriedade que eu jamais teria e fico muito feliz em recomenda-los. A questão é mais simples, focada no aspecto alimentar: quem mais se beneficiaria da dieta vegana está incluído nos meios que a discutem? Compras mais baratas, mais frutas, menos processados, menos remédios.

    É aí que entra a classe que não só tem mais voz, como mais tempo pra dedicar a uma luta.
    É falar sobre desperdício, sobre proteína e propriedades.
    É disponibilizar informação e popularizar o acesso.
    É passar receitas, testar, convidar, oferecer.
    É conversar com pessoas fora da sua bolha do Facebook.
    É não ser sereia. É ser gente, de carne e osso.

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    6 comentários

    1. Lorena disse:
      04/12/2016 às 10:23

      Ótima reflexão!
      Ah, sempre adorei o Caribe…rs

      • Mayara Guitar disse:
        06/06/2016 às 16:32

        Obrigada, Lorena! <3
        Confesso que deixava o Caribe por último, mas quando batia a vontade ia ele mesmo! hahaha

    2. Jessica disse:
      04/12/2016 às 10:48

      Nossa, amei demais seu texto. Eu sou vegetariana (sem leite, ovos, mel e etc) e rumo ao veganismo, estou em diversos grupos do Facebook e vejo muitas brigas, muitas discussões a respeito do veganismo aquela rixa veganismo x elitismo, mas ninguém (ou quase ) assume o privilégio de que a informação chegou até mim, que eu tenho acesso à informação e que isso me trouxe até este estilo de vida. A maioria das pessoas não tem conhecimento do que é veganismo e como veem pessoas “ricas” seguindo já associam, e muitas vezes os veganos esquecem que nem todo mundo pode “dispensar” uma cesta básica, que nem todo mundo pode procurar ou comprar online uma pasta de dente vegana, ou mesmo como fazer a própria, e por aí vai. Precisamos levar a informação para quem não tem, ter a paciência e principalmente empatia.

      Um abraço!

      • Mayara Guitar disse:
        06/06/2016 às 16:54

        Oi, Jessica!
        Lembro que seguia um pessoal vegano – principalmente modelos e nutricionistas – no Instagram e eles me desanimaram bastante no início. Essa onda de ser sereia, sabe, de comer tâmara de sobremesa… Não tinha nada a ver com a minha realidade. Sobre essa pose e as brigas dentro da comunidade, parece até que esquecem que, há um tempo, eles também consumiam carne, leite, ovos, né?! É um exercício diário pra todos quebrar esse hábito, até pra nós. Vamos melhorando a cada dia. Esse campeonato de quem é mais vegano não ajuda em nada.
        Obrigada pelo seu comentário. <3

    3. Aretha disse:
      04/13/2016 às 15:13

      Cara, ADOREI seu post! O movimento de libertação animal tem que aprender a fazer recorte de classe. A informação não chega em quem mais precisa, e não adianta ficar tentando passar goela abaixo que “dieta vegana é mais barata” quando as pessoas não tem acesso a informação.

      • Mayara Guitar disse:
        06/06/2016 às 16:44

        Exatamente, Aretha! Falta muita empatia. Quem dera se fosse só no movimento de libertação animal, né?! 🙁
        Obrigada pelo comentário. <3

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