• Tinha corpo de mulher, mas não era uma

    Menina Moça desde os 15 enche a boca pra dizer que não acredita no amor. Uma paixão atrás da outra, todas platônicas. Por pressão das amigas, beijava um cara por ano. Um beijo e um adeus. Sonhava com o futuro brilhante e não ia perder seu tempo com os meninos da escola.

    Era uma adolescente normal, cheia de neuras, nem feia e nem bonita. Uma baixinha de quadril largo e peitos grandes. Menina Moça chamava atenção por onde passava. Não ligava se as bobagens que falava ou se a falta de timidez fazia com que pensassem que sua experiência sexual era maior que a das amigas mais recatadas.

    Aos 17 estava na faculdade. Sentia-se adulta realizando seu sonho. Estudava na cidade vizinha onde conhecia nada além da faculdade e a casa da tia onde ficava hospedada. Logo no primeiro semestre fez novas amigas. Todo final de semana saia. Beijou mais meninos em uma noite que no ensino médio todo.

    Ouvia das amigas que precisava esquecer os meninos e conhecer um homem de verdade. Foi apresentada a um. Moreno, cheiroso e mais velho. Trocaram telefones e dessa vez não saiu com as meninas. Querendo impressionar, ele e os amigos, acabou perdendo a hora de voltar.

    Menina Moça se viu, em algum lugar da cidade, deitada em uma cama de solteiro em um pequeno cômodo de paredes azuis. Ouviu pela primeira vez o clichê “não vou fazer nada que você não queira”. Quase adormecia quando o homem virou lobo.mina

    Uma mão prendia seus pulsos enquanto a outra era usada para se livrar das calças. Menina Moça estava assustada e gritava que era virgem. Chorava enquanto o lobo forçava a penetração e dizia que ela era uma menina de festa e certamente ele não era o primeiro. Menina Moça sentiu seu corpo, sua alma e seus sonhos rasgarem. Chorando silenciosamente, esperou até o primeiro raio de sol enquanto o lobo dormia ao seu lado. Pleno.

    Na tentativa de limpar sua alma, muito mais do que seu corpo, Menina Moça foi para o banho. Na volta viu o lobo tirando o lençol manchado de sangue. Triste e envergonhada pediu se assim ele acreditava que tinha sido o primeiro. Foi chamada de mentirosa. Ouviu ameça de que ele mexeria em sua na bolsa pra encontrar absorventes. Quanto mais conversam mais sua alma doía. Calada decidiu sair dali quando o lobo voltou a ser homem. Dizia que queria vê-la novamente e que estava apaixonado. Como resposta, nenhuma palavra, apenas lágrimas.

    Apesar da vergonha, muito mais por não saber se os líquidos que saiam de seu corpo eram dela ou dele, comprou a pílula do dia seguinte. Sozinha aguentou os efeitos dos hormônios e as dores do corpo e da alma que o homem causou.

    Menina Moça tinha corpo de mulher, mas não era uma. Ela, que enchia boca falando que não acreditava no amor, por um tempo não falava mais nada. Matou seus sonhos e morreu por alguns anos.

    Depois dos 20, reagiu. Começou a acreditar no amor e sozinha se fez mulher. Decidiu que nunca mais veria paredes azuis como aquelas e que ninguém mais a faria se sentir suja e minúscula. Perdeu a virgindade novamente, com homem e mulher.

    Hoje, Menina Moça enche a boca pra dizer que o amor existe sim, mas primeiro é preciso se aceitar. Amor próprio é o melhor remédio e, assim como o tempo, cura tudo.

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